Arquivo mensal: setembro 2007

Escutatória

Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar.

Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.

Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”. Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia e que de tão linda nos faz chorar.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Eu seria a primeira aluna desse curso… eu já ando cada dia mais silenciosinha mesmo.
Acho muito bom.
Não sei se é porque o meu avesso, o meu contrário…bocuda e tagarela que eu sempre fui, né?
Mas tenho achado bom esse movimento que me apareceu, do nada, de prestar mais atenção, perceber mais o outro.
E vc, escuta bem?

Coisas da cozinha de Bocoióla

COM O QUÊ:
• 5 pêras (ou maçãs)
• 80 g de manteiga
• 200 g de farinha de trigo
• 100 g de açúcar mascavo
• 2 pitadas de canela em pó
• Sorvete de baunilha ou chantilly feito em casa (opcional)

CALDINHA:
• 80 g de manteiga
• 80 g de açúcar mascavo
• 40 ml de uísque
• 100 ml de creme de leite.
• Derreta a manteiga com o açúcar mascavo, mexendo sem parar;
• Adicione o uísque e mexa por 1 minuto, até evaporar;
• Misture o creme de leite e ferva por 5 minutos, em fogo baixo.

ps: Ou seja cruel e simplesmente derreta chocolate ao leite e jogue por cima geeenerosamente.

PREPARE ASSIM:
Corte as pêras já descascadas em gomos finos, removendo os caroços;
• Monte o fundo de uma assadeira refratária (de paredes baixas) com metade das pêras, em formato de leques.
•Polvilhe esta camada com a canela e um pouco do açúcar.
• Monte outra camada sobre a anterior;
• Misture os demais ingredientes numa vasilha, esfarelando-os com os dedos, até obter uma espécie de “farofa”;
• Leve ao forno pré-aquecido a 180ºC por cerca de 30 minutos, ou até que a superfície esteja dourada e crocante;
• Sirva quente.

Se eu tô fazendo dieta de engorda com os meninos?

Mas eu não como essas coisas, vcs sabem.

…só alface e agrião. No máximo, uma ruculazinha.

Pffff…

Lady Murphy ou a batalha em busca da secretária perfeita

você viu que o The Police vem ao Brasil, em dezembro, pra tocar no MA-RA-CA?
***

O tempo continua péssimo, mas eu tenho me divertido horrores com as candidatas à minha secretária do lar.

(É, meu bem, eu disse empregada doméstica aqui, na semana passada, e recebi logo um puxão de orelha politicamente corretivo.)

Olha bem os melhores “momeintos”:

Vânia, 25 anos, separada, 1 filho de 5 que é criado pela mãe dela.
Pode dormir, tem referência.
Entrevista toda boa, ela muito fluente, simpática e foi atenciosamente carinhosa com Caio.
No final, eu pedi os documentos dela: carteira de trabalho, carteira de saúde, identidade.
Normal, né?
Lá vem ela: “mas tem uma coisa…eu não lavo… nem passo.”

Eu, em conversa autista imediata: sobra pra mim, por supuesto!

A propósito, eu vivo num apartamento de 3 quartos, sala, dependência de empregada…
Os meus dois meninos, eu e marido, mais cachorra Gaia.
Tomamos um café da manhã frugal, não jantamos, lanchamos…ou seja, ela vai fazer almoço e limpar a casa e dormir 17 horas por dia?

Claro que era e-xa-ta-men-te isso que eu tinha em mente.

Lá vem a Ilsiane (diz-se ilziane, por favor) do Piauí.
41 anos, sem filhos, amigada com um sujeito que ficou lá na terra dela.
Cozinheira de mão cheia, nunca tinha entrado num prédio na vida. Elevador?
“Graças a Deus que senhora mora no logo no primeiro piso. Porque eu não entro naquela caixinha lá, de jeito e maneira.”

Mas uma simpatia! Fiquei encantada, até que…

“Mas dona, eu antes cuidava era de uma casa com oito quartos. E o quarto de eu dormir era uma casa atrás, com cozinha e até um varandado só pra mim”.

E ela deixa claro que eu sou a mais miseravelmente pobre das patroas que ela já viu.

Lá na frente, ela me diz que o namorado ficou lá, mas que eles não se separaram, não.

Eu quero saber como vai ser, operacionalmente falando, isso. E ela me sugere, sorridente, que de 15 em 15 dias ela irá ao Piauí, ver o amado.

Eu tentei explicar que Brasília fica um pouco longe…que Piauí não é Goiânia.

Mas não é que fica longe, o problema. É que eu sou pobre e não posso mandá-la de avião, penso eu, com os meus surpresos e humilhados botõezinhos de classe média.

E atenção: a vaga ainda está aberta!

Increditavelmente, né mesmo?

Crato

O Crato é aqui?!
Sim, porque depois do almoço era humanamente impossível
realizar qualquer tarefa, por mais simples…
Tipo, jogar a 12ª garrafa d’água do dia no lixo.
Nem que fosse mode Hortência on…
A média pra sobrevivência aqui é essa, beibe.
Meio litro por hora…
ou vai virar um tecão de carne do sol?
Jamais confie nos hômi do Climatempo.
Pideite da minha queridíssima Beth, corregindo minha ignorância ninja:
BethS disse…
A seca tá de lascar em Brasilia, Bela, mas queria muito que fosse como o Crato, que, ao contrario do que vc falou aí, é um municipio muitissimo agradavel. Ele está no pé de uma chapada (do Araripe), no Vale do Cariri cearense, de temperatura sempre amena, com muitas cachoeiras e mangueiras fantásticas… O Cariri (Crato, Barbalha e Juazeiro do Padim Ciço)é conhecido no Nordeste como o Oásis do Sertão, visse? Dizem que ali, em épocas glaciais, foi um grande lago. É um lugar incrivel, gostaria mesmo de voltar lá!BeijoS ressecados…

Soundtrack do meu amor

Embalada pelo começo do meu dia (vide post abaixo) e como boa bocoióla, eu fiz uma linha musical* do tempo, do nosso caso aqui.

De baixo pra cima.

Eu amo todas e cada uma, com suas historinhas particulares.

Close your eyes, get you beloved one cheek to cheek…

Bom delírio!

In my life – The Beatles

They can’t take that away from me – Jane Monheit & John Pizzarelli

Aeroplane – Björk

Kissing a Fool – George Michael

Here, There, Everywhere – Paul McCartney

For once in my life – Harry Connick Jr.

The man I love – Ella

*lista das americaninhas/inglesinhas.
De outras nacionalidades tem aos montes.
Brasileiras, então…vixxxxe!

Me pondo a perder

Pôr a pessoa a perder é uma tática de guerrilha emocional.

Knock out da razão, curto circuito do sentimento, pane da emoção…

Isso não se faz, num sábado de manhã tão cedo, viu?

(faz , sim…hehehehe. E eu amoooooo!)

Tão bom encontrar a mesa posta!

Bolo de milho, frutas, café fresquinho, pão novinho…e uma folha de papel, debaixo do meu prato…

BELLA
como en la piedra fresca
del manantial,
el agua abre un
ancho relámpago de espuma,
así es la sonrisa en tu rostro, bella.

Bella,
de finas manos y delgados pies
como un caballito de plata,
andando, flor del mundo,
así te veo, bella.

Bella,
con un nido de cobre enmarañado
en tu cabeza, un nido
color de miel sombría
donde mi corazón arde y reposa,
bella.

Bella,
no te caben los ojos en la cara,
no te caben los ojos en la tierra.
Hay países, hay ríos
en tus ojos,
mi patria está en tus ojos,
yo camino por ellos,
ellos dan luz al mundo
por donde yo camino,
bella.

Bella,
tus senos son como dos panes hechos
de tierra cereal y luna de oro,
bella.

Bella,
tu cinturala hizo mi brazo como un río cuando
pasó mil años por tu dulce cuerpo,
bella.

Bella,
no hay nada como tus caderas,
tal vez la tierra tiene
en algún sitio oculto
la curva y el aroma de tu cuerpo,
tal vez en algún sitio,
bella.

Bella, mi bella,
tu voz, tu piel, tus uñas
bella, mi bella,
tu ser, tu luz, tu sombra,
bella,
todo eso es mío, bella,
todo eso es mío, mía,
cuando andas o reposas,
cuando cantas o duermes,
cuando sufres o sueñas,
siempre,
cuando estás cerca o lejos,
siempre,
eres mía, mi bella,
siempre.

(Pablo Neruda)

E a cara congela num sorriso… Pro resto da vida!

Se eu chorei?
Que pergunta mais besta, oras bolas…

pideite: Meu caçula acorda, dá de cara com as flores que eu tinha acabado de receber e fica enciumadíssimo: “Papai, a gente não dá presente que vai estragar pra ninguém!”

Mississipi – 1870

Agora, no Mississipi…DE EMÍLIAAAAAA!

eu tive até falta de ar!

ps: red, gold and green…the colours of my dream…hauhauhauhauhuah

Mas devia ser beeeem red,

um green beeem limão

e o *golden devia ser a chuva que caia

(drug abuse?)

ps do ps: Arthur, diz se não foi dai que vc tirou a chuva de loosho?!

Da série: eu não sei viver sem

Um salário mínimo?

Nunca paguei!

Vai cozinhar, lavar, passar, arrumar, limpar e ainda dorme na minha casa?

Eu pago bem! Porque se tem um dinheiro que eu acho o mais bem pago do mundo é o da empregada doméstica.

Há duas semanas eu tô sem uma e, beibe, já tô perdendo gradativamente o meu humor. È uma coisa sem noção morar numa casa com três homens e um cão. Porque eles têm a ilusão de que as coisas surgem por geração espontânea
ou pensam que aqui é a casa dos Jetsons.

Minha mãe do céu! Eu to pra pedir o divórcio de todos três. Não fosse pelo fato de dois deles serem meus filhos, isso daria até certo. O cão, pobrezinho, é mais vítima do que tudo…é verdade. Mas fica nos meus calcanhares enquanto eu ando pela casa, varro, limpo, arrumo, cozinho. E no fim do dia eu quero MA-TAR!


Pois, quem estiver nas redondezas e souber, assim, de alguém, sem folha corrida na puliça, com bons antecedentes, que goste de criança e cão…e que saiba, ao menos, passar um bifinho (porque eu não troco por um danoninho), eu agradeço a indicação.


Na Bahia as pessoas dizem,

quando vc está fazendo o ‘silviço de casa’,

que vc está GRAXEIRANDO!

Óia, que verbo( no gerúndio ainda) inspirador!

E olha que eu adoro cozinhar. Eu adoro arrumar uma bela mesa. Adoro receber os amigos e a família pra uma boa comilança, mas cozinhar todo-santo-dia…putaqueopariu!

E lavar banheiro? Cousa do demônio!

Cara amiga-colega-dona-de-casa,
o que é lavar a panela de feijão e a assadeira de peixe, não é mesmo?

Nem nos meus mais perversos sonhos, eu poderia imaginar tal sensação.

Nota mental: comprar uma maquina de lavar pratos U-R-G-E-N-T-E!