Arquivo mensal: setembro 2008

Sobre vacas & capitalismo

CAPITALISMO IDEAL

Você tem duas vacas. Vende
uma e compra um touro. Eles
se multiplicam, e a economia
cresce. Você vende o rebanho
e aposenta-se… rico!
________________________________________

CAPITALISMO AMERICANO

Você tem duas vacas. Vende
uma e força a outra a produzir
leite de quatro vacas. Fica
surpreso quando ela morre.
________________________________________

CAPITALISMO FRANCÊS

Você tem duas vacas. Entra
em greve porque quer três.
________________________________________

CAPITALISMO CANADENSE

Você tem duas vacas. Usa o
modelo do capitalismo
americano. As vacas morrem.
Você acusa o protecionismo
brasileiro e adota medidas
protecionistas para ter as
três vacas do capitalismo
francês.
________________________________________

CAPITALISMO JAPONÊS

Você tem duas vacas, né?
Redesenha-as para que tenham
um décimo do tamanho de uma
vaca normal e produzam 20
vezes mais leite. Depois cria
desenhos de vacas chamados
Vaquimon e os vende para o
mundo inteiro.
________________________________________

CAPITALISMO ITALIANO

Você tem duas vacas. Uma
delas é sua mãe, a outra
é sua sogra, maledetto!!!
________________________________________

CAPITALISMO BRITÂNICO

Você tem duas vacas.
As duas são loucas.
________________________________________

CAPITALISMO HOLANDÊS

Você tem duas vacas. Elas
vivem juntas, não gostam
de touros e tudo bem.
________________________________________

CAPITALISMO ALEMÃO

Você tem duas vacas. Elas
produzem leite pontual e
regularmente, segundo
padrões de quantidade,
horário estudado, elaborado
e previamente estabelecido,
de forma precisa e lucrativa.
Mas o que você queria
mesmo era criar porcos.
________________________________________

CAPITALISMO RUSSO

Você tem duas vacas. Conta-as
e vê que tem cinco. Conta de
novo e vê que tem 42. Conta de
novo e vê que tem 12 vacas.
Você pára de contar e abre
outra garrafa de vodca.
________________________________________

CAPITALISMO SUÍÇO

Você tem 500 vacas, mas
nenhuma é sua. Você cobra
para guardar a vaca dos
outros.
________________________________________

CAPITALISMO ESPANHOL

Você tem muito orgulho
de ter duas vacas.
________________________________________

CAPITALISMO PORTUGUÊS

Você tem duas vacas… E
reclama porque seu
rebanho não cresce…
________________________________________

CAPITALISMO CHINÊS

Você tem duas vacas e 300
pessoas tirando leite delas.
Você se gaba muito de ter
pleno emprego e uma alta
produtividade. E prende o
ativista que divulgou os
números.
________________________________________

CAPITALISMO HINDU

Você tem duas vacas.
Ai, de quem tocar nelas.
________________________________________

CAPITALISMO ARGENTINO

Você tem duas vacas. Você
se esforça para ensinar as
vacas a mugirem em inglês…
As vacas morrem. Você
entrega a carne delas para
o churrasco de fim de
ano ao FMI.
________________________________________

CAPITALISMO BRASILEIRO

Você tem duas vacas. Uma
delas é roubada. O governo
cria a CCPV – Contribuição
Compulsória pela posse de
Vaca. Um fiscal vem e lhe
autua, porque embora você
tenha recolhido corretamente a
CCPV, o valor era pelo número
de vacas presumidas e não
pelo de vacas reais. A Receita
Federal, por meio de dados
também presumidos do seu
consumo de leite, queijo,
sapatos de couro, botões,
presume que você tenha 200
vacas e, para se livrar da
encrenca, você dá a vaca
restante para o fiscal deixar
por isso mesmo…

Quem mandou pra mim foi a Yaso! Valeu, fófis!

…doeu aqui!

Eu tava desavisada passeando pelo Blip.FM, quando cai nesse radinho AQUI do Gravataí. E dei de cara com essa música e… Lona, beibe! L-O-N-A!

Letra, música e interpretação de chorar ri-os!

Chicão, ficórse!

Valeu, Gravataí!

Tanto mar*
Chico Buarque

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

* Letra original,vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.

E essa foi a versão brazuca liberada:

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Ruim não podia ficar, porque aquele moço lá não sabe fazer mal feito.

Pitadinhas de delicadeza

Post Secret

Davi, meu sobrinho lindo comemorou os três anos ontem. Eu cheguei na festa e ele estava com febre. Fui dar um beijinho e disse:

– Cachorrinho, vc tá com febre?
– Tia Belinha, eu não sou cachorrinho, sou menino grande.
– ô, meu amor, eu chamo assim de cachorrinho só quem eu amo muito, tá bom?
– Tá bom, cachorrinha.

***

Caio (6 anos) acorda, na MINHA cama – depois de uma longa labuta na noite anterior pra que dormisse na cama DELE -, olha pra mim e diz:

– Bom dia, mãe! Essa foi uma enganada da boa, hein?
– Ah, mas é muita cara de pau, filhote, era o que me faltava…
– …enganação BOA, eu disse, mãe, só de amor!

***

Belinha (10 anos) entra lá em casa e diz:

– Tia, me pinta pra uma festa?
– Claro! Vá se vestir, que depois eu faço sua maquilagem.

(sai correndo e volta num vestido esvoaçante roxo!)

– Belinha, esse vestido é seu?
– Antes não era. Agora é só eu querendo ser minha irmã* um pouquinho.

*que tem 16 anos!

Pensamentos partidos

“É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo” *

Eu passo muito tempo sem escrever – não que eu faça alguma coisa que preste nesse sentido -, escrever pra mim, no meu canto, sem a exigência da profissão.

Não são temporadas mudinhas, de recolhimento, não. São épocas de esterilidade, quando eu estou, pura e simplesmente. Quando parece que eu me alheio. Fico vendo, de olho parado, a vida acontecendo, dentro e fora de mim.

Estranhamento, desconforto e silêncio. E o que me completa as muitas lacunas são coisas que desde sempre eu uso, as minhas tábuas de salvação: letras, sons, toques, cores, gostos, cheiros, abraços, colos, amores, imagens…tudo de alguém. É uma apropriação mesmo, descarada.

Ai eu vou voltando, em doses homeopáticas, em fragmentos, frases soltas…



O que segue são anotações, perdidas entre notas de espresso, recibos do mercado, contas de luz, quadro de medalhas, roteiros de sites, dados do TSE, indicação de um hidratante anti-rugas, planejamento de aniversário do filho, discussões do Supremo, datas de reunião e recados.

***

Tenho ouvido bastante, olhado muito, falado menos, mas rido de-ma-is. Chorado um pouco, às vezes, mas por só por maus motivos. Pode apostar que são os piores: filmes, livros, olhares e abraços de despedida. Só golpe baixo.

***

Saudade da Beth. Arrumar um dia pra ligar pra Beth… e ficar hooooras.

***

De sonho eu nem quero falar…O último foi real, atormentado, um deus-nos-acuda. E longo. Infernalmente longo. Acordei pra engarguelar o marido.

***

Raiva, indignação e rebeldia são coisas que eu devo abandonar, em prol da minha saúde. Preciso meditar.

***

Incrível como eu ando morta de amores pelos meus amados de sempre. Deve ser isso que me põe nessa espécie de berlinda, de tempos em tempos.

***

Em um mês, eu terei um filho de 15 anos…

***

Tenho tido mais insônias do que eu já estava acostumada.

“… já não haveria mais tempo para nada, porque já teria amanhecido e quando amanhece, pensou, as pessoas fazem coisas prosaicas, caseiras, uma ilusão de ordem, feito escovar dentes, pentear cabelos, bater travesseiros…”*

*Caio Fernando Abreu, em Pela Noite – Triângulo das Águas

Consultora from hell ou Agridoce é a mamacita

A pessoa veio aqui, arrumou encrenca com meio mundo. Chateou, azedou o dia de um bocado de gente. E eu? Eu fazendo a egípcia(que minha Tatiamante bem me adestrou), finíssima, no salto.
Na hora da despedida a criatura resolve me chamar pr’uma conversinha. Eu penso que não custa nada, acabou o dia mesmo, ela já vai embora. Respiro, sorrio e topo.
Ela sem medo do inferno, rápida como só ela, certeira, esperta pacax e educada na Suiça, me diz que eu sou agridoce! Sabe aquela coisa cheia de certeza? Definitiva?

Rá rá rá.

…eu olhei de lado e perguntei: você acha, sweety?

é cada uma que me aparece…

E o Patu Fu fez a melhor letra.

Da série: Meu inbox salva meu dia

Poesia Matemática
Millôr Fernandes

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Texto extraído do livro “Tempo e Contratempo”, Edições O Cruzeiro – Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.