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“Cartão de Natal”

Porque é quase Natal e porque hoje se completam dez anos da morte dele – esse poeta pernambucano encantador, brasileiríssimo que eu adoro. E porque eu sempre desejo que o Sim vença o Não.

Assim, mesmo que arbitrariamente, mesmo que pareça impossível, mesmo que tudo nos mostre que não. Desejo, pra nós todos, um Natal de muitos e diversos e completos SIMs.


Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.


Texto extraído do livro “
João Cabral de Melo Neto – Obra Completa“, Editora Nova Aguilar, 1994, pág.

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RONALDO PAIXÃO

(Ronaldo na praia da “sorte”)

A gente herda um mundo de coisas de pai e mãe. O cabelo liso, a boca carnuda, um Wagner, Caetanos, vestidos puídos feitos à mão, regras, comportamentos, broches, poetas preferidos, padrões, sapatos, chapéus, sotaques. Aprende a tratar as pessoas, a ser gentil, a ter dignidade na derrota, a não ser besta na vitória, a dar valor ao que importa. Recheia a cabeça e o espírito com coisas que vêm claramente deles… Mas a gente herda, se tiver muita sorte, mais muita mesmo, um amigo precioso pra rechear o coração. Do tipo que desde sempre esteve lá, que já andava meio misturado na família, que aconselhava nas crises, comemorava as vitórias, dava livros de presente nos momentos de “retiro”, que reconhecia ao ver meus filhos uma emoção legítima, que tinha um olhar doce e indomável pro mundo… que tinha um espírito capaz de transformar, com poucas e certas pinceladas, o feio em alguma coisa que valesse a pena botar atenção. Um cara que olhava pro meu pai do jeito mais puro e verdadeiro, que sabia dizer que o amava. Que quando viu meu filho recém-nascido deixou cair uma lagriminha trêmula e um riso largo “que lindo esse gene dominante”. E esse cara, que de bônus me disse um dia que “nada na vida devia ser levado tão a sério que merecesse a minha infelicidade, nem mesmo a morte de um amor, nem a desistência, nem a falência do afeto ou a negação. Nada disso tem o direito de me fechar o coração”…esse cara morreu ontem (11 de agosto) de manhã, depois de ter repetido, ainda no domingo, uma única palavra, vezes sem fim: ” a sorte, a sorte, a sorte, a sorte.”
Meu pai escreveu o seu Réquiem.
Eu me calo.

RÉQUIEM PARA
RONALDO PAIXÃO

Sofro com a sua morte

uma das maiores desgraças

que se pode sofrer nesta vida.

Perdi alguém que me conhecia

e me perdoava. Alguém que me amava.

Com menos talento e generosidade,

eu também o conheci e o amei

– mas nunca precisei perdoá-lo.

***
A família de Ronaldo Paixão espera você para sua cerimônia de passagem, no dia 13 de agosto de 2008, às 10:00 da manhã, na Capela do Crematório Jardim Metropolitano. Cemitério s/n -Parque Araruama – Vaparaíso de Goiás.
RENOVAÇÂO

Já não falarei
de dor e de sofrimento
porque já não os sinto
em meu ser.

Falarei somente de um sentimento
que domina a mim
e a meu pensamento
do amanhecer até o anoitecer.

Falarei nisto, dia após dia,
neste algo, que agora sinto,e não sentia,
quando de minha vida
era o amanhecer.

Foi que passei por sobre o tempo,
caminhando contra o frio e contra o vento,
numa ânsia louca de viver.

Ronaldo Paixão, aos 13 anos – 1967