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“Cartão de Natal”

Porque é quase Natal e porque hoje se completam dez anos da morte dele – esse poeta pernambucano encantador, brasileiríssimo que eu adoro. E porque eu sempre desejo que o Sim vença o Não.

Assim, mesmo que arbitrariamente, mesmo que pareça impossível, mesmo que tudo nos mostre que não. Desejo, pra nós todos, um Natal de muitos e diversos e completos SIMs.


Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.


Texto extraído do livro “
João Cabral de Melo Neto – Obra Completa“, Editora Nova Aguilar, 1994, pág.

silêncio, frio e delicadeza

cama de inverno
cama de inverno

Noite de sexta. Semana que termina dividida entre tensão, incerteza e cansaço.

Friozinho…só o suficiente pra dormir de meias e camisola longa.
Noite de silêncio e delicadezas.
Calma, casa vazia, pizza no forno, séries americanas, Virgínia Woolf, Beethoven e chuva.

E eu ganhei da Iara um fragmento da “Ode à Alegria”, o último movimento da Nona Sinfonia. É uma poesia de Schiller (musicada por Beethoven) … Não foi à toa que foi escolhida como Hino da Comunidade Européia:

Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.

Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!

Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.

Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões se deprimem diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!


Te desejo uma boa canequinha de chá, feito a minha!

Presença

Tenho cá comigo
nós dois
depois daquilo
uma poça de sangue
um sangue que não coagula por nada
nem de medo de uma morte
e por essa sorte
e benção
o que jorra de mim
é insuficientemente vermelho
e não dá pra matar
nem respira da vida
nem sangra, não mancha
ou faz minha história
porque meu sangue é poça
poça que não coagula por nada
escorre pra todo canto
e continua cá,
comigo

André Jerico

Esse moço tá cada vez melhor.
Mas ele anda bissexto, sabe?
Acompanhem e entrem na campanha”Volta pro Blog!” que eu comecei, porque a gente me-re-ce ler essas coisas lindas todo dia!

Insônia

(Ela me trouxe pra casa… veio alumiando o caminho todo. Serena. Linda. Cheia. Ela.)

Taí um negócio que me tira do sério…

Como a pessoa pode simplesmente não dormir?

Se deita na cama, rola, enrola, lê, fecha o livro, liga aTV, se cobre, se descobre, desliga a TV, levanta, toma água, deita de novo, acende a luz, lê mais um pouco, se estira, respira, fundo, mais fundo, relaxa, põe o livro de lado, desiste, levanta, faz um chá, toma, lava a caneca, enche outro copo d’água, pensa que pode ser água demais pra uma madrugada só na mesma bexiga, deita, cobre, vira de lado, pra cima, escuta os filhos ressonando, ouve o barulho da rua, vira de barriga pra baixo, ouve os filhotinhos da Gaia reclamando, vira do outro lado, levanta, vai ver o que é, passa na sala, pensa num DVD, desiste, abre os armários, pega uma bolacha, volta pro quarto, desiste de sofrer e vai pro computador escrever bestagem.(olha bem lá embaixo que horas são!)

Coisincrível, né?


***

Da série: Um poeminha na madrugada.

Sossega Coração! Não Desesperes!

Fernando Pessoa

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.

Então, livre de falsas nostalgias,

Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!

Pobre esperença a de existir somente!

Como quem passa a mão pelo cabelo

E em si mesmo se sente diferente,

Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!

O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,

A grande, universal, solente pausa

Antes que tudo em tudo se transforme.


Me pondo a perder

Pôr a pessoa a perder é uma tática de guerrilha emocional.

Knock out da razão, curto circuito do sentimento, pane da emoção…

Isso não se faz, num sábado de manhã tão cedo, viu?

(faz , sim…hehehehe. E eu amoooooo!)

Tão bom encontrar a mesa posta!

Bolo de milho, frutas, café fresquinho, pão novinho…e uma folha de papel, debaixo do meu prato…

BELLA
como en la piedra fresca
del manantial,
el agua abre un
ancho relámpago de espuma,
así es la sonrisa en tu rostro, bella.

Bella,
de finas manos y delgados pies
como un caballito de plata,
andando, flor del mundo,
así te veo, bella.

Bella,
con un nido de cobre enmarañado
en tu cabeza, un nido
color de miel sombría
donde mi corazón arde y reposa,
bella.

Bella,
no te caben los ojos en la cara,
no te caben los ojos en la tierra.
Hay países, hay ríos
en tus ojos,
mi patria está en tus ojos,
yo camino por ellos,
ellos dan luz al mundo
por donde yo camino,
bella.

Bella,
tus senos son como dos panes hechos
de tierra cereal y luna de oro,
bella.

Bella,
tu cinturala hizo mi brazo como un río cuando
pasó mil años por tu dulce cuerpo,
bella.

Bella,
no hay nada como tus caderas,
tal vez la tierra tiene
en algún sitio oculto
la curva y el aroma de tu cuerpo,
tal vez en algún sitio,
bella.

Bella, mi bella,
tu voz, tu piel, tus uñas
bella, mi bella,
tu ser, tu luz, tu sombra,
bella,
todo eso es mío, bella,
todo eso es mío, mía,
cuando andas o reposas,
cuando cantas o duermes,
cuando sufres o sueñas,
siempre,
cuando estás cerca o lejos,
siempre,
eres mía, mi bella,
siempre.

(Pablo Neruda)

E a cara congela num sorriso… Pro resto da vida!

Se eu chorei?
Que pergunta mais besta, oras bolas…

pideite: Meu caçula acorda, dá de cara com as flores que eu tinha acabado de receber e fica enciumadíssimo: “Papai, a gente não dá presente que vai estragar pra ninguém!”

AOS QUE VIEREM DEPOIS DE NÓS

É verdade,
eu vivo num tempo sombrio!
Uma palavra sem malícia é sinal de tolice.
Uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ri
Ainda não recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando
Falar sobre árvores é quase um crime
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Já está inacessível aos amigos
Que passam necessidades?
É verdade: eu ainda ganho bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso.
Nada do que faço
Me dá o direito de comer quando tenho fome.
Estou sendo poupado por acaso.
(Se a minha sorte me deixa, estou perdido.)
Me dizem: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que eu posso comer e beber
Se a comida que como, tiro de quem tem fome?
Se a água que bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas mesmo assim, eu como e bebo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Se manter afastado dos conflitos do mundo
E passar sem medo
O curto tempo que se tem para viver;
Seguir seu caminho sem violência;
Pagar o mal com o bem;
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim!
É verdade, eu vivo num tempo sombrio!
Eu vim para a cidade no tempo da desordem
Quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a Terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas.
Para dormir, eu me deitei entre os assassinos.
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a Natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado dado viver sobre a Terra.
………………………………………………………………….
Vocês, que vão emergir
Das ondas em que nos afogamos.
Pensem, quando falarem das nossas fraquezas,
Dos tempos sombrios de que tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através das lutas de classes,
Mudando mais de país do que de sapatos,
Desesperados quando só havia injustiça
E não havia revolta.
Nós sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também endurece o rosto;
A cólera contra a injustiça
Também faz a voz ficar rouca.
Infelizmente nós,
Que queríamos preparar o terreno para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o Homem seja amigo do Homem,
Pensem em nós
Com simpatia.
– BERTOLT BRECHT (Tradução de Fernando Peixoto) –