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“Cartão de Natal”

Porque é quase Natal e porque hoje se completam dez anos da morte dele – esse poeta pernambucano encantador, brasileiríssimo que eu adoro. E porque eu sempre desejo que o Sim vença o Não.

Assim, mesmo que arbitrariamente, mesmo que pareça impossível, mesmo que tudo nos mostre que não. Desejo, pra nós todos, um Natal de muitos e diversos e completos SIMs.


Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.


Texto extraído do livro “
João Cabral de Melo Neto – Obra Completa“, Editora Nova Aguilar, 1994, pág.

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cafeina, insônia e lirismo na madrugada (amém!)

Passei uma noite mezzo adormecida, sacumé?

Se não fosse o que me aconteceu na madrugada, diria que foi uma noite mal dormida… Mas escrevi um bocado de coisa. Matutei outro tanto. Escrevi um pouco, li mais um tiquinho. Ai mandei pra quem devia… e recebi essas duas respostas:

Bendito café que ocupa a mentes dos apaixonados. Para os enamorados, a noite é uma porta que une almas e mentes. Mestre sala da permissividade. Os olhos traem o gesto, mas o meu olhar é absoluto quando encontra o seu. Só existem verdades.

Os gestos são decifráveis, são comestíveis, são devoraveis, pele da sua pele. Ao seu lado eu me reciclo, me renovo, me permito. São estrelas reluzindo no meu pequeno mundo com enorme intensidade e que me fazem palpitar de alegria. Luz da esperança perdida que abarca todo meu universo.
Não tenho regras contigo, não as conheço.

E depois, um repente:

Andei tanto pela vida procurando por você
vem a vida e te mostra o que a gente fez  por merecer.
Já não esperava amar, me acostumei a conviver,
como toda a sinceridade tudo é vida com vc.

Agora, meu amor, acredite se quiser
sou feito santo, moço coberto de fé
andei tanto por ai, perdido que nem chipanzé
agora te pego no colo, sou seu para o que der e vier
Tanto tempo eu passei, agoniado sem saber
que ali, bem na esquina, eu iria me surpreender
pensei muito, muito mesmo, quase endoido de enlouquecer
agora na minha vida, posso gritar para todo mundo
que só tenho uma rainha, e essa rainha é você.

Quer dizer… num tem como chamar uma noite dessas de ruim, n’est pas?

LABIRINTO

O caminho para o centro não é reto nem é longo nem é algo que se ensine. O caminho para o centro é deslize, é tropeço, é não se dar conta de como se chegou lá. O caminho para o centro passa perto de onde perdemos o chão sob os pés.

(rené de paula jr.)

Eu postei isso, há exatos 3 anos… e  até engraçado perceber esses ciclos.

Quase sempre acho que o melhor movimento, antes da ação, é o recolhimento, é pra dentro. Quem faz antes, por reação, por reflexo, pode até se safar de alguma coisa, mas quase sempre vai ter que voltar pra consertar… E eu andei pra fora demais, nos últimos tempos.

Não bom. Não bom.

Mas pra dentro tb não tá muito bom, sabe?

Tô sem zona de conforto…

Presença

Tenho cá comigo
nós dois
depois daquilo
uma poça de sangue
um sangue que não coagula por nada
nem de medo de uma morte
e por essa sorte
e benção
o que jorra de mim
é insuficientemente vermelho
e não dá pra matar
nem respira da vida
nem sangra, não mancha
ou faz minha história
porque meu sangue é poça
poça que não coagula por nada
escorre pra todo canto
e continua cá,
comigo

André Jerico

Esse moço tá cada vez melhor.
Mas ele anda bissexto, sabe?
Acompanhem e entrem na campanha”Volta pro Blog!” que eu comecei, porque a gente me-re-ce ler essas coisas lindas todo dia!

Insônia

(Ela me trouxe pra casa… veio alumiando o caminho todo. Serena. Linda. Cheia. Ela.)

Taí um negócio que me tira do sério…

Como a pessoa pode simplesmente não dormir?

Se deita na cama, rola, enrola, lê, fecha o livro, liga aTV, se cobre, se descobre, desliga a TV, levanta, toma água, deita de novo, acende a luz, lê mais um pouco, se estira, respira, fundo, mais fundo, relaxa, põe o livro de lado, desiste, levanta, faz um chá, toma, lava a caneca, enche outro copo d’água, pensa que pode ser água demais pra uma madrugada só na mesma bexiga, deita, cobre, vira de lado, pra cima, escuta os filhos ressonando, ouve o barulho da rua, vira de barriga pra baixo, ouve os filhotinhos da Gaia reclamando, vira do outro lado, levanta, vai ver o que é, passa na sala, pensa num DVD, desiste, abre os armários, pega uma bolacha, volta pro quarto, desiste de sofrer e vai pro computador escrever bestagem.(olha bem lá embaixo que horas são!)

Coisincrível, né?


***

Da série: Um poeminha na madrugada.

Sossega Coração! Não Desesperes!

Fernando Pessoa

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.

Então, livre de falsas nostalgias,

Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!

Pobre esperença a de existir somente!

Como quem passa a mão pelo cabelo

E em si mesmo se sente diferente,

Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!

O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,

A grande, universal, solente pausa

Antes que tudo em tudo se transforme.


Da série: Meu inbox salva meu dia

Poesia Matemática
Millôr Fernandes

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Texto extraído do livro “Tempo e Contratempo”, Edições O Cruzeiro – Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.

Receita pra lavar palavra suja

de Viviane Mosé

Mergulhar a palavra suja em água sanitária.

Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.

Algumas palavras quando alvejadas ao sol

adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.

Existem outras, e a palavra amor é uma delas,

que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar

e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.

São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.

Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.

Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.

Agora nunca vi palavra tão suja como perda.

Perda e morte na medida em que são alvejadas

soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,

que é capaz de esvaziar o vigor da língua.

O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho

em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer

é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente

sabão em pó e máquina de lavar.

O perigo neste caso é misturar palavras que mancham

no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo,

a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.

Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo,

sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode,

o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.

Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.

Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras

sob o risco de perderem o sentido.

A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,

produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.

Muito importante na arte de lavar palavras

é saber reconhecer uma palavra limpa.

Conviva com a palavra durante alguns dias.

Deixe que se misture em seus gestos, que passeie

pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,

não a seu lado mas sobre seu corpo.

Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,

prolifera em toda sua possibilidade.

Se puder suportar essa convivência até não mais

perceber a presença dela,

então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.

***

Boa segunda, queridos todos!