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Uma Pessoa Boa… e tantas não

Há uns dias, voltei de uma viagem de trabalho, no que eu chamo de Vôo do Padeiro – um desses vôos da madrugada, chegando aqui às 4h e lá vai estrelinha.

Vinha sozinha numa fileira de 3 poltronas, onde poderia me espalhar e dormir à vontade,  bem agasalhada, como sei ser, depois de alguns anos de experiência em aviões ultragelados, mas… Logo atrás de mim estavam três pessoas conversando numa animação de meio-dia! Papo cheio de tiradas espirituosas, slangs e piadinhas de gueto. Eu não pude não achar graça. Terminei me virando pra trás algumas vezes e sorrindo pra eles. Eram transformistas.

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Da metade do vôo em diante, comecei a perceber um desconforto de alguns vizinhos, claramente manifestado em caras fechadas e sobrancelhas cerradas, com o adicional de comentários cochichados e olhares de reprovação – isso quando não sobrava um dedo apontado na nossa direção (sim, nossa, porque a esta altura já estávamos conversando, os quatro) ou um ascende-apaga de luzes de bordo quase cênica, só pra iluminar aqueles rostos rabugentos.

Devidamente ignoradas, as manifestações desagradáveis, pedi que falássemos mais baixo, afinal, era alta madrugada e as pessoas deviam estar com sono, cansadas, querendo dormir. Terminei confessando que era esse meu desejo inicial, principalmente quando dei por mim naquilo que se converteria em um sofazinho de três lugares só pro meu sono. Eles prometeram cafuné, massagem nos pés e mãos e contos e cantigas de ninar, às gargalhadas.  Nada disso se concretizou.

Emendamos uma longa conversa que durou as duas horas e tanto de vôo, mais o tempo de espera pelas malas. Falamos de governos e desgovernos, amizade e amor, até que resolveram me confidenciar o que faziam, em tom solene e com uma profunda marca de mágoa na voz.

Eles me contaram histórias em nada parecidas com os contos de fada antes prometidos. Junto com mais 10 pessoas, são representantes de uma ONG que identifica corpos de travestis, transformistas e transexuais em IMLs pelo país.  Trabalho que em nenhum momento do mais que bem humorado papo e comportamento, denuncia a crueldade e a dor daquilo que  vivenciam cotidianamente, como resultado do tratamento insensível, desumano e atroz que damos a todos eles, indiscriminadamente.

Originalmente da Paraíba, os três viajam o tempo todo pra salvar da vala comum quem já teve uma vida inteira de exclusão. Entram lá, identificam, providenciam papéis, caixões, enterros dignos. Sabe por que?

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Porque eles se negam a aceitar que mesmo depois da morte – tantas e na maioria das vezes violentíssima -, mais uma vez, essas pessoas tenham o mesmo fim : a marginalização, a indigência e o abandono.

 

# Você pode conhecer algumas histórias no HOMOFOBIA MATA ou acompanhar a evolução dessa estatística no MAPA DOS HOMOCÍDIOS NO BRASIL#

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O Alex Castro publicou no Facebook.

Eu parei e fiquei.

Depois, dediquei, republiquei, comentei… Passei o dia com esse texto reverberando.

“amiga falando do irmão com quem divide um apartamento:

ele é uma pessoa boa, linda, incrível, tolerante, generosa… mas não lava a louça! sai da mesa e deixa a louça lá, como se ela fosse magicamente se lavar sozinha, e quem tem que lavar tudo sou eu! depois de já ter cozinhado sozinha!

no nosso dia a dia, temos poucas oportunidades práticas de ativamente não-estuprar, não-roubar, não-torturar, não-cometer-genocídio.

não-matar não é uma decisão consciente que tomo todo dia e da qual posso ter orgulho. somente não-estuprar não faz de mim uma pessoa boa.

o mal é a falta de empatia. o mal são os olhos cegos e os ouvidos moucos. o mal é a desatenção e o autocentramento. o mal é aquilo que sinceramente não me ocorre, que realmente não enxerguei, que juro que não ouvi, que não sei como fui esquecer.

o que é um batedor de carteiras comparado ao honesto pai de família que não enxerga nada a sua volta? que não vê a esposa insatisfeita e desesperada, as filhas confusos e autodestrutivos, a sócia abrindo a garrafa de uísque cada vez mais cedo?

o mal não é arrancar a anne frank do sótão: o mal é cruzar todo dia pelo porteiro com o braço engessado e nunca perguntar, nunca se preocupar, nunca nem reparar.

o mal não é ser dono de uma fazenda com duzentos escravos: o mal é ser contra uma nova estação do metrô porque vai destruir as arvorezinhas da sua praça e nunca te ocorrer das centenas de milhares de trabalhadores que não têm carro, passam horas e horas em ônibus e terão suas vidas significativamente melhoradas por uma nova estação.

o mal não é a estrela da morte explodir alderã: o mal sou eu relaxar do longo dia de trabalho curtindo um filme, depois de um belo jantar feito por minha irmã, e nunca me passar pela cabeça que ela teve um dia igualmente longo de trabalho, ainda por cima fez o jantar e agora está sozinha tirando a mesa e lavando a louça, e ainda perdendo a chance de ver o filme!

eu poderia tentar argumentar: foi mal, sou tão distraído, minha cabeça está cheia de problemas, não lembrei mesmo…

mas a distração que me faz esquecer não é o que me justifica: é o que me condena.

gostaria de poder dizer que sou uma pessoa boa que tem péssima memória e é muito distraída. mas não: minha péssima memória e minha extrema distração são sintomas de meu profundo desinteresse por tudo que não diga respeito a mim.

eu não esqueço os nomes das editoras com quem tenho que fazer networking. o dinheiro que emprestei pra uma amiga, o endereço da nigeriana com quem flertei na praia.

eu esqueço de lavar a louça (“puxa, fiquei aqui distraído com o filme, agora ela já lavou, amanhã ajudo!”), de assinar o livro de ouro dos porteiros (“putz, com essa correria de natal, nem lembrei, mas tudo bem, ano que vem dou em dobro!”), de responder o email da amiga que pediu minha ajuda (“caramba, essa mensagem está na minha caixa de entrada há três anos, ela já deve ter resolvido sozinho.”)

mas não tem problema: na minha cabeça, sempre me absolvo. afinal, sou o protagonista do filme da minha vida e tudo o que eu faço sempre se justifica.

é um de tantos paradoxos da vida narcisista: julgo os outros por suas ações, mas quero sempre ser julgado por minhas intenções.

quando dirijo perigosamente e alguém me xinga, ainda me dou ao direito de me chatear:

porra, será que ele não vê que estou com pressa? respeito as leis do trânsito todo dia, mas hoje tenho aquela reunião importantíssima!

não interessa o que seja: ou agi certo (e o mundo tem que reconhecer e me premiar, senão é muita injustiça) ou agi errado, mas por um motivo totalmente válido (e o mundo tem que reconhecer e me entender, senão é muita injustiça).

hoje em dia, penso o contrário: qualquer comportamento meu que precise ser justificado ou racionalizado já está por definição errado.

mais ainda: talvez eu não seja uma pessoa boa.

ser bom é não é apenas ajudar minha irmã a lavar a louça.

ser bom é tornar-me uma pessoa para quem seria intolerável sentar para assistir um filme enquanto minha irmã lava toda a louça sozinha.”

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